A data da última Ceia (Bento XVI)

A cronologia dos Sinóticos: Uma cronologia emblemática[1].

Jesus ceia na Páscoa, numa quinta-feira à noite, e morre na sexta-feira, pois foi dito que José de Arimatéia pediu o corpo de Jesus “porquanto era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado” (Marcos 15, 42), e ele ceou a Páscoa na véspera da crucifixão, quinta-feira.

Na sexta-feira, daquele ano, comemorava-se a Páscoa judaica.

Está escrito que Jesus celebrava a Páscoa, conforme a Lei, “na noite do primeiro dia dos pães ázimos” (MC 14, 12-17). A noite do primeiro dia dos ázimos, quando, no Templo, sacrificavam os cordeiros pascais, era a véspera da Páscoa.” Então, Jesus morreu no dia da Páscoa judaica.

O problema é que o processo e a crucifixão tenham ocorrido em plena festa da Páscoa, o que não é totalmente impossível, mas é pouco provável, pois também está escrito que os grandes sacerdotes e os escribas queriam evitá-la, para que não se fizesse alvoroço entre o povo. (Mc 14, 2).

A hipótese da Senhora Jaubert: uma hipótese pouco provável [2].

A hipótese é: Jesus foi morre numa sexta-feira, dia da Páscoa judaica, mas ele faz a refeição pascoal na terça-feira, à noite.

A última Ceia aconteceu numa terça-feira, “Jesus adotando o calendário do Livro dos Jubileus (IIº século antes de J.C), calendário inicialmente propagado em Qumram e, no qual o 15 Nisan continua sendo comemorado, sempre, numa terça-feira à noite.” Assim, Jesus comemorou uma verdadeira ceia pascal; havia, então, tempo suficiente para implementar a prisão e o processo de Jesus antes da Páscoa judaica.

Entretanto, além disso, a tradição da quinta-feira remonta a outros tempos “seguramente ao século II”; a Didascália dos Apóstolos (inicio do século III) tem uma base frágil. “Outra dificuldade decorre do fato que Jesus teria utilizado  um calendário difundido, sobretudo em Qumran, e isso parece pouco provável. Nas grandes comemorações, Jesus frequentava o Templo... Ele seguia o calendário judaico das festividades, como nos revela, sobretudo, o Evangelho de João.

A cronologia de João:

Jesus celebra a Páscoa numa quinta-feira, à noite, e morre na sexta, mas a Páscoa judaica, naquele ano aconteceu no sábado.

Segundo o Evangelho de João, já estava amanhecendo e, para evitar contaminação cerimonial, os judeus não entraram no Pretório; pois queriam participar da Páscoa. (João 18, 28). Naquele ano, segundo São João, a Páscoa judaica caía num sábado.

Então, de que forma a ceia de Jesus teria ocorrido na quinta-feira à noite?

“A resposta de Meir é espantosamente simples e convincente, sob inúmeros aspectos. Jesus estava consciente de sua morte iminente. Ele sabia que não poderia cear a Páscoa. Nesta clara consciência, Ele convidou os discípulos para uma última Ceia, que não pertencia a nenhum rito judaico determinado, mas que seria a sua despedida, na qual Ele lhes daria algo de novo, ele se daria a si mesmo, como o verdadeiro Cordeiro, assim instituindo a sua Páscoa.” [3]

Se João está certo, por que motivo os Sinóticos evocaram uma ceia pascal?

“Como retrospectiva, a conexão interior do conjunto com a morte e a ressurreição de Jesus parece evidente. Era a Páscoa de Jesus [...] O antigo rito não fora negado, mas, foi somente levado ao seu sentido pleno.” [4]

O primeiro testemunho desta visão unificante se encontra em Paulo:

“Purificai-vos, expurgai o fermento velho, para que sejais massa nova, assim como sois sem fermento, sois ázimos. Pois, Cristo, nossa páscoa, já foi sacrificado. (1 Co 5, 7)

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[1] Joseph Aloisius Ratzinger, Bento XVI, Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém à Ressurreição. Palavra e Silêncio, Paris, 2011, pp. 130-131

[2] Ibid, PP 133-135

[3] Ibid., p. 137

[4] Ibid., p. 138

Resumo de F. Breynaert de: Joseph Aloisius Ratzinger, Bento XVI, Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém à Ressurreição. Palavra e Silêncio, Paris, 2011, pp. 130-139