Na casa de Nazaré, a vida de oração em família

Todo sabbat, José e Jesus, vestidos com seus mantos de oração, o tallit, iam à sinagoga, enquanto que Maria preparava a mesa da festa. Em efeito, a mulher possuía o privilégio de acender a vela da festa, no início da liturgia, na sexta-feira à noite, recitando uma benção:

« Bendito sejas tu, Senhor, que nos pediste para acender a luz »

Este gesto simbólico dizia muito, sobre a vocação da mulher, que tem que acender a luz, transmitir a vida, a esperança e a alegria. As discussões ao redor da mesa não giravam somente sobre as cenas de violência que acompanhavam a presença romana: Jesus trazia a discussão sobre a memória de Israel: além do cotidiano há a eleição, as promessas, a aliança, a doação da terra, a lei.

O cotidiano não pode fazer esquecer nem o essencial nem o sentido da vida. Mesmo o trabalho cotidiano recebia, à luz da eleição, uma nobreza toda especial. Toda vez que José e Jesus recitavam em casa, a cada manhã, o Shema Israel e a oração do Shemore Esre (ou oração judia das 18 bênçãos), Maria escutava em silêncio. Ela tinha todo o prazer em se unir à suas orações e em memorizá-las. Bastava que ela dissesse Amém ao fim da oração para que essa fosse considerada sua.

Jesus, que havia aprendido de cor o Qaddish, a oração que é declamada aos funerais de um membro do vilarejo, deveria certamente repeti-la diante de Maria, da mesma forma que ele recitava suas lições antes de ir à escola de Sepphoris. Jesus levava os tephilim (uma faixa que os judeus levam para a oração), e não cortava suas costeletas, como exige a Bíblia. Maria conhecia o significado destes mandamentos. Sua sensibilidade e sua inteligência se abriram, na casa de Nazaré, à visão do mundo, toda dirigida à vinda do reino de Deus. Mesmo se os romanos não entendiam os usos e costumes dos judeus, e não se privavam de ironizar esses hábitos, que lhes pareciam vetustos.

A vinda do reino invisível e espiritual significava para Israel a santificação do Nome de Deus. Ora, o que representa esta santificação, senão a aceitação do jugo do reino e a separação dos costumes pagãos? Ser santo não é afinal ser separado? Como fui escolhida para ser a serva do Rei, se eu não professo na minha vida o amor do único Nome? O reino de Deus, esta proximidade de Deus com o homem, não significa o conhecimento das vias do Senhor, para agir com justiça e destreza?